Mais um dia em vão no jogo em que ninguém ganhou
Dá mais cartas, baixa a luz e vem esquecer o amor
És tu quem quer
Sou eu quem não quer ver que tudo é tão maior
Aqui está frio demais para apostar em mim.
Vê que a noite pode ser tão pouco como nós
Neste quarto o tempo é medo e o medo faz-nos sós
És tu quem quer
Mas eu só sei ver que o tempo já passou e eu fugi
Que aqui está frio demais para me sentir... mas queres
ficar?
Queres levar
Tudo o que é meu
É tudo o que eu
Não sei largar
Vem rasgar o escuro desta chuva que sujou!
Vem que a água vai lavar o que me dói!
Vem que nem o último a cair vai perder.
Esta possibilidade de ser ou não ser...
Com jeitos mansos, falinhas iguais...
Porque andas, amas? Para onde vais?
E o termo comparativo
Da comparação inexistente
É a existência, insipiente,
De alguém ao lado...
E se ele é inteligente?
Será mais que a outra gente?
A humildade é um dom
Que torna existente
A sabedoria em quem
Quer servir o mundo inteiro!
Que risota é pensar que o ser,
Humano?, está no centro da criação!
Princípio antrópico?
Cagar para o coração
E justificar o injustificável
Para te justificares a ti próprio
Quando imaginas que não tens justificação.
Tudo terá de satisfazer a tua opinião?
Opinião? Sabes quem tu és?
Como queres saber quem são os outros?
Ser?!!! Não ser?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Dá-me uma ajuda, ó médico das almas
Para escolher em que combate combater
Quem condeno eu à vida
Quem condeno eu à morte
Que me podes tu dizer
Encostado à árvore do tempo
Folhas vivas, folhas mortas, estações
Nada disto faz sentido
E o sentido do sentido não paga as refeições
Este torpor só tem uma solução
Sejamos deuses, é meter as mãos à obra
E no fazendo acontecendo
Deixar ir o coração
Que é o que nos sobra
Ao fazer-se o mundo nasce de si próprio
Ser avô é uma alegria atravessada
Dá para rir e p’ra chorar
Não temos nada com isso
Mas nada não é nada
Disseste um dia que tudo vale a pena
Tornar as almas mais pequenas é que não
Vamos sobre as duas patas
Juntar as partes da antena
Espalhadas pelo chão
Fecha a porta que vem frio lá de fora
Diz o coxo ao despernado, e eu aqui
Fui à procura de mim
Encontrei-me mesmo agora
E ainda não fugi
O tempo corre por entre pívias e manhas
E tudo fica cada vez mais como está
Mas ao correr desta pena
Não fico à espera que venhas
Eu já sou o que virá

